A "CAPA DE HONRAS"
Mirandesa é uma peça de artesanato mui "SUI GENERIS"
do planalto Mirandês, que tem por finalidade proteger os "boieiros"
(guardadores de vacas) e pastores de todas as intempéries nos meses
mais rígidos, nomeadamente no Inverno.
Como é uma das peças de artesanato mais ilustres do planalto
Mirandês, como é óbvio, é indispensável
a sua utilização em qualquer tipo de cerimónias, sejam
de que índole forem.
É uma peça com grande valor etnográfico e que requer
um trabalho minucioso por parte do artesão devido à sua grande
complexidade.
Em terra de Miranda diz a sua gente: "Há nove meses de Inverno
e três de inferno". O Clima é áspero e variável,
a paisagem agreste, apenas convidativa na Primavera e em alguns dias de Outono.
No resto, tocam-se os extremos do frio e do calor.
Por isso, o homem que tem vivido nesta terra criou a sua maneira de vestir
para se defender no trabalho do campo, destes dois extremos.
A sua vida toda ela de natureza agro-pecuária, levou-o a criar os trajes
de certa maneira austeros, simples e belos, artesanais e domésticos,
feitos à base dos recursos locais, o linho e a lã (Burel).
É, pois, feita de lã, fiada, urdida, tecida e pisoada (pardo-burel)
a capa de honras Mirandesa.
É uma das peças do trajo popular Português, pesada, a
mais imponente e a mais antiga.
Deve ter origem na capa de "Asperges" gótica, de raiz medieval
de algum mosteiro Leonês. "Muito ornamentada de lavores nas bandas,
gola – carapuça sui generis e rabicho que, por detrás,
pende até meio dela, dando ao todo o aspecto de capa de asperges eclesiástica
medieval, como observa Trindade Coelho". É parecida com a capa
de Burel de Aliste mais rica e mais solene.
Como diz Ernesto Veiga de Oliveira, "Vemos em terra de Miranda numa categoria
à parte a capa de honras, em Burel, a mais nobre peça do nosso
traje popular, de capuz, honra e aletas, com aplicações recortadas
e ponteadas, em cuja confecção se chegavam a gastar 60 dias
e mais".
De cor castanha, fabrico caseiro, ainda hoje se confecciona em Constantim
(Miranda do Douro) e é utilizada por individualidades em actos célebres
e por pastores e lavradores desta região transmontana, principalmente
no inverno. De notar que cabeção "HONRA", pala, orlas
das abas e da racha, atrás são ornadas com aplicações
de burel finamente recortadas, cosidas à mão sobre o fundo intermédio
de tecidos de lã preto.
O cabeção e a honra rematam em franja. A pala do capuz é
debruada por uma barra de tecido de lã preta.
O nome "HONRA" não provém unicamente do seu uso por
pessoas mais ricas e nobres, mas sim por muito trabalhada.
Antigamente era usada pelas pessoas que possuíam um estatuto social
mais elevado, "mais ricas". Era um traje domingueiro. Ao longo dos
tempos passou a ser usada por pastores e lavradores da região.
Hoje verifica-se grande procura por pessoas de fora e autóctones, o
que vem confirmar a admiração, riqueza e beleza desta preciosidade
do artesanato Português.
Como se pode constatar por esta descrição pormenorizada isto
premeia a grande dedicação, rigor e mesmo grande imaginação
por parte do artesão.
Isto faz com que seja uma peça de artesanato de grande exemplar da
cultura Portuguesa e além disso constitui um grande orgulho do artesão.
Domingos Raposo