Abrigos rochosos onde se notam vestígios
vários de representações parietais.
Está situado a cerca de 3 kms de Duas Igreja num local ermo e granítico
a que se dá o nome de Scantralhouço, Poço Picão,
Malrasca e Solhapa. Logo que se aproxima deste local, pode ver ao fundo a
aldeia de Vila Chã e a capela de Freixiosa. Entre estas duas aldeias
vêm-se as escarpas acentuadas do rio Douro. De cabeça gorda a
paisagem é "gigantesca" e prende-nos a respiração
por momentos.
Até à década de cinquenta a Solhapa não era mais
que um abrigo, onde os pastores guardavam os rebanhos no verão, "podiam
sestear 150 ovelhas". Nesta altura um pastor disse ao padre Antonio Maria
Mourinho, que dentro da Solhapa havia uns riscos que parecia terem sido "feitos
pelos pastores, com pedras, para que as ovelhas não escorregassem".
Passados alguns dias o Padre Mourinho visitou o abrigo e sobre ele escreveu:
"deduzi espantado, logo à primeira vista, que se tratava de insculturas
rupestres ou de pteroglifos antigos, ao verificar, logo de início,
pelo menos três séries de gravuras, duas horizontais e uma vertical,
dentro do vasto abrigo, onde a chuva não entra e o sol apenas ao nascer
e até às 8 ou 9 horas da manhã, só nos meses de
Maio, Junho e Julho". Em visitas posteriores o Padre Mourinho, observou
na rocha que cobre o abrigo, uma série de covinhas e pequenas barras,
mais ou menos longas; e uma figura antropomorfa insculpida na pedra com a
forma de um réptil. Próximo do abrigo, os pedreiros retiravam
pedra para a construção, em Duas Igrejas. Numa das visitas,
encontrou um pedreiro a quebrar dois grandes rochedos contíguos ao
abrigo, do lado Nordeste, que tinham nos topos " fossas maiores, circulares,
em forma de grandes tigelas e que não me pareciam covas de lobo, nem
quaisquer fossas provocadas pela erosão, mas taças feitas pela
mão do homem".
A solhapa está voltada para norte, atrás de sí passa
o rio Douro e do seu lado direito a ribeira. Neste local existe um vale muito
fértil, onde estão cultivadas vinhas e hortas, e abrigado dos
ventos.
Cerca de 100 metros do abrigo existiu um castro habitado com cerca de 150
metros de comprimento por 100 metros de largura. Embora não se encontrem
vestígios de muros, talvez por serem de terra, é possível
encontrar vestígios de habitações primitivas, com a forma
de aglomerados circulares de seixos rolados vindos da ribeira. Visto que este
castro se encontra a meio de uma encosta com pouco declive, é pouco
provável que esta cerca tenha tido uma função defensiva.
Segundo o relato do Padre Mourinho, aquando da plantação de
uma vinha, no fundo dos valados, "apareciam com frequência, a 40,
50 ou até a 70 cm de profundidade, cinzeiros, uma espécie de
fornos ovais cheios de cinza e ossos de animais fossilizados"; "a
cada passo, surgiam pazadas de terra preta, misturada com pequenos pedaços
de cerâmica pobre e escura", também se encontraram vasos
completos, com uma pedra de xisto a servir de tampa, com cinza no seu interior.
Estes achados permitem supor que o povo que habitou este castro da Solhapa
praticava a incineração, esta hipótese é apoiada
pela existência no local de um local de cremação.
Outros objectos encontrados no local incluem machados de pedra lascada, seixos
rolados, com sinais de utilização e topos contusos, pedras polidas
ovais para triturar cereais assim como mós manuais, primitivas e toscas.
Um quilometro a sul da solhapa, na margem da ribeira foi encontrada uma placa
de xisto azul, com decorações geométricas, do tamanho
de uma mão humana, semelhante às encontradas nos dólmens
Alentejanos. Os objectos encontrados no local estão no museu de Miranda
do Douro.
DESCRIÇÃO E INTERPRETAÇÃO
Solhapa é um termo em mirandês que significa gruta, abrigo que
provém do latim sub lapide.
O antropomorfo - Feiticeiro
Considerando a disposição deste abrigo podemo-lo dividir em
dois grupos, um interno e outro externo; subdividindo-o ainda em duas séries
externas e três internas. No grupo externo, sobre a cobertura do abrigo
e muito próximo da borda do bloco granítico, está gravada
na rocha a representação esquemática de uma figura humana.
Está orientada no sentido nascente - poente, com a cabeça voltada
para poente. A cabeça tem um aspecto trapezoidal, terminando em pontas
que parecem cornos. Imediatamente por baixo estão os braços,
um votado para sul o outro para norte, observa-se ainda o tronco e as pernas
que terminam de uma forma afilada. Sensivelmente ao nível da origem
as pernas, estão insculpidas duas linhas, uma oblíqua voltada
para sul e com comprimento idêntico ao das pernas, e outra perpendicular
ao tronco com cerca de um quinto do comprimento da anterior voltada para norte.
Aparentemente a primeira representa uma cauda e a segunda um falo erecto.
Figuras semelhantes foram descritas em Espanha e em França. Esta figura
poderá ser interpretada como sendo um feiticeiro; sendo o protector,
devido à sua localização sobre o abrigo, de acordo com
a sua fisionomia apresenta-se como um ser sobrenatural pois toma a forma de
um animal (cauda), também está relacionado com o sentido mágico
de fecundidade (Falo erecto).Ainda fora do abrigo mas à entrada deste
encontra-se um grande bloco com numerosas covinhas gravadas, provavelmente
relacionadas com a fertilidade, estas covinhas são características
castros rupestres não só no planalto Mirandês como também
noutros locais.
No grupo interno observam-se três séries de gravuras, as duas
primeiras são longitudinais, uma horizontal e a outra parietal, respectivamente;
a terceira corresponde ao pavimento do abrigo. A primeira série é
composta por covinhas e barras interligadas mais ou menos em labirinto. Começando
pelo lado esquerdo, vê-se uma figura em ângulo, precedida de um
alter e a seguir na parte inferior um serpentiforme ligado na parte direita
a três covinhas, parecendo ter três cabeças. Após
uma série de covas observa-se um par amoroso, tocando os pés
e um braço, e o outro braço da figura da direita, que é
a masculina, está voltado para trás, aponta o falo à
devida altura. Na extremidade esquerda desta série observa-se uma figura
enigmática, Parece ser um animal a lutar com um homem, ou então
será a representação esquemática de um parto.
Esta ultima interpretação baseia-se em representações
semelhantes encontradas e França e em Altamira, (Espanha). Pode ser
que esta imagem seja um voto de agradecimento pelo nascimento de uma cria,
pela fecundidade; ou uma representação mágica de procriação
a pedir essa fecundidade ou seja esse nascimento.
Na segunda séria, a parietal é constituída por ranhuras
perpendiculares, por covinhas isoladas ou associadas em grupos de duas ou
três, e semicírculos. Como elemento predominante, observa-se
uma figura incisa, com um bojo central cavado na rocha, prolongando duas barras
para baixo e debaixo delas uma figura curva, terminada á frente por
uma espécie de cruz com quatro braços; do bojo, sobe obliquamente
uma incisura que aparenta ser o pescoço ou a cabeça de um equídeo;
um pouco atrás sobre o dorso, observa-se uma ranhura que parece ser
uma figura humana. Esta figura aparenta ser uma representação
esquemática de uma caçada, pois aos pés da montada aparenta
estar um animal inconsciente. Esta imagem impressiona pelo ineditismo do seu
aspecto, pois não foram encontradas representações semelhantes
do mesmo período histórico, e pela forma como os pteroglifos
estão incisos, todos muito polidos.
Finalmente na terceira série que corresponde, ao pavimento do abrigo,
com um comprimento de aproximadamente doze metros, observam-se em toda a area
covinhas mais ou menos profundas, e barras quer rectilíneas quer em
forma de boomerang. Segundo alguns historiadores existe uma dicotomia entre
vulva (as covinhas) e falo (as barras), de qualquer modo é evidente
que ambas as representações estão relacionadas com a
fecundidade.
Os motivos gravados: linhas sinuosas, covinhas, figuras antropomórficas
fálicas podem associar-se pintura rupestre esquemática da Península
Ibérica. Cronologicamente e de uma forma muito genérica é
possível que a tenha sido habitada entre os finais do Neolítico
e inicio do Calcolítico/Bronze. O povo que aqui habitou terá
sido um povo de caçadores e pastores, que já domesticava alguns
animais, provavelmente também já se dedicavam à agricultura.
É provável que existisse alguma hierarquização
social, pois a ser verdade que o antropomorfo insculpido na cobertura do abrigo
seja um feiticeiro, é provável que em torno dele se organiza-se
a restante população. Também era um povo com uma grande
religiosidade, o motivo do seu culto seria a fecundidade.